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sábado, 29 de novembro de 2014

Quem somos nós no mundo?

Foto/registro do encerramento das atividades
Helder Ronan de Souza Mourão. Jornalista. Atualmente cursa o mestrado em Ciências da Comunicação na Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Essas credenciais me possibilitaram chegar a Vila de Paricatuba/AM nos dias de 30 e 31 de outubro para ministrar um curso de fotografia para alunos da educação básica.
Fui convidado pela professora Dra Ítala Clay, que coordena o Programa de Educação Tutorial (PET) dos cursos de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo e Relações Públicas, da Ufam. Chegamos todos a Vila com um planejamento de atividades bem detalhado e uma proposta de curso baseada em nossas experiências e preferências.
Ao conhecer a turma para quem ministrei o curso, percebi de fato a realidade na qual estava situado; percebi o desafio que teria durante os dois dias, pela manhã e tarde; e por fim, percebi que não minhas credenciais perderam o valor naquele momento.
Eis que surgiu o questionamento: quem somos nós no mundo?
Naquele momento eu praticamente deixei de ser alguém que já existiu. Aquele era outro mundo, uma realidade "alternativa" dentro do nosso mundo, tal qual nosso subconsciente - uma parte esquecida, mas que é um pedaço de nós.
Para os alunos dos primeiros ciclos (na época que estudava era chamado primário) eu era o professor. A maioria nem sabe o que é um mestrado. Boa parte não sabe o que faz um jornalista - o que de fato não acrescenta nada para a realidade atual deles.
Acanhados, ao começar o curso poucos falavam. Diziam não conhecer muito coisa de fotografia, celulares ou Smartphones. Mas a saída para tirar fotos mudou tudo. Os que não dominavam um celular ainda, aprenderam com uma rapidez e facilidade tamanha, que mal pude perceber quando eles tinham passado do estágio de "acanhados" para jovens fotógrafos.
Mas em fim. Eu tive reaprender a me tornar alguém naquele momento. Junto das crianças eu tive que desenvolver um processo que me adequasse a eles - e não o contrário - para poder executar minhas atividades.
A cada foto uma explicação. Aquelas crianças dominavam com adultos a história, memória e importância da Vila. Inclusive os fatos mais pesados, tristes e mórbidos, que de praxe nossa sociedade cria e mantém.
Pedra do Coração - Localizada na Praia da Vila

 Naqueles dois dias eu deixei de ser jornalista. Não era mais aluno de mestrado. Pelo menos isso não importava e não fazia sentido nenhum ali. Como professor, como um amigo, eu pude ensinar algo aquelas crianças.
O primeiro dia foi difícil. Não nos conhecíamos. O diálogo foi difícil, não havia comunicação! No segundo dia veio a surpresa. Eles estavam animados. Queriam saber das atividades que fariam e das fizeram no dia anterior. Havia confiança, um elo, comunicação. Houve um interação qualitativa.

A humildade é proporcional a alegria.
No segundo dia eu era alguém NAQUELE mundo. Sabíamos os nomes uns dos outros. Eles sentiram a falta da monitora que acompanhou as atividades no primeiro dia, Andriele Oliveira (minha colega de mestrado). Conversavam e se entendiam com a outra monitora, Thaís Bentes (aluna de Relações Públicas).

Dois tempos de uma mesma história
Por fim, a questão é que não podemos ver o mundo apenas com nossos olhos. Precisamos vê-lo (e nos ver) com os olhos dos outros. Eu estava no espaço deles, nas regras deles; eu me senti um deles - fui considerado um deles. Quem sou eu no mundo? Não sei. É muito cedo pra dizer e há muitas pessoas pra responderem isso.
A experiência da atividade na Vila de Paricatuba me marcou, com toda certeza. Foi igualmente proveitosa para os demais que estiveram ali. Por fim, como estamos na Amazônia e somos bons amazônidas, um banho de rio para acalmar, relaxar e deixar na memória.
Vila de Paricatuba, até a próxima, se houve...

Fotos: Equipe memória do Petcom; Alunos da Vila de Paricatuba.